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domingo, 12 de outubro de 2014

Crianças de Gana


Ouvi dizer, um dia, que quanto mais a gente cresce, menor o nosso coração fica. Desde então, eu sempre tive medo de me tornar adulta.

Quando criança, ao soprar as velinhas de aniversário ou ao fazer um desejo para uma estrela cadente, eu desejava ser eternamente criança, como Peter Pan na Terra do Nunca.
 
 
Eu tinha medo de perder o sorriso, a fé na humanidade, os sonhos mais malucos, como ser astronauta e mudar o mundo. Temia não acreditar mais nos contos de fadas, nos livros de fantasias e histórias de piratas.
 

Ao chegar na África, achei que poderia passar para as crianças de Gana todo o encantamento que eu tive de ser criança.
 
Queria mostrar-lhes as páginas coloridas do mundo.

Esperava poder fasciná-los com contos de aventura e fantasia. Engano meu.

Na cultura ganense, as crianças não são, de fato, crianças.

Desde muito pequenas, acordam 4:30 da manhã, todos os dias, para trabalhar duro e serem adultas.
 
Muitas são vendidas como mercadorias para serem escravas de outras famílias.

Lavam, passam, fazem comida e apanham, apanham muito. Não só da família, mas da vida.

No primeiro evento que participei como voluntária em uma comunidade muito precária de Kumasi, crianças foram testadas para HIV.

Muitas já possuem relações sexuais desde os 9 anos de idade, sem instrução nenhuma. Outras já nasceram com AIDS por contraírem o vírus da mãe. São sérias, apáticas, tristes. São, acima de tudo, adultas.


Quando criança, eu não queria crescer, ser gente grande. Esses pequenos, ao contrário de mim, não podem ser crianças. Eu chorava quando meus pais não podiam comprar a boneca nova da propaganda de TV. Eles choram, muitas vezes, por não terem o que comer.


Eu não queria ser adulta, os meus pequenos só querem sobreviver. Contos de fadas e histórias de piratas? De que serve isso tudo se essas crianças mal conseguem parar em pé?


Velinhas de aniversário? Estrela cadente? Se eu pudesse voltar no tempo, eu mudaria todos os meus desejos. Uma criança africana, um grito de socorro.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A Magia Branca




Assim como em todas as manhãs desde que eu cheguei em Gana, hoje eu acordei ao som dos tambores da música africana. Estou apenas há 10 dias na África e sinto como se já tivesse passado um ano. 

Há dias que não são fáceis e é preciso muita coragem para passar por cima de todos os problemas, uma verdadeira luta diária. É estranho dizer isso, mas apesar de todas as dificuldades, sinto uma energia cada vez mais forte tomando conta do meu coração, e é isso o que tem me dado forças.


A língua oficial de Gana é o Inglês, no entanto há a predominância de diferentes idiomas locais. As comunidades mais pobres, por exemplo, não possuem o domínio do Inglês, o que dificulta muito a comunicação por aqui, principalmente no projeto de HIV que estamos desenvolvendo. A língua local falada no vilarejo de Kwamo, onde vivo, é o Twi. Aos poucos, estou tentando aprender pelo menos o básico.
 
 
A comida é imensamente apimentada, misturada e colocada em sacos plásticos enrolados em jornais, para ser vendida em barracas pelas ruas. Tudo é muito gorduroso, já que a maioria das coisas são fritas em banha de porco.
 
 
É comum o consumo de carne de frango, bode e, assustadoramente, morcego e rato. Muitos saem à caça de ratos durante a noite, queimando as matas com círculos de fogo para que os animais sejam capturados.
 
Como não há a utilização de talheres, tenho que comer com as mãos, até mesmo sopas. Na verdade, apenas com a mão direita.
 
Comer com a mão esquerda é considerado uma falta de respeito para os ganenses. 

Para eles a mão esquerda é a mão que limpa as nossas necessidades fisiológicas.

Como todos sabem que as condições de higiene em Gana são muito precárias, isso seria um desrespeito.
 
Os ganenses em geral fazem apenas de uma a duas refeições por dia.

As pessoas não possuem condições financeiras para bancar mais do que isso.

E além disso, o país não oferece estrutura para a possibilidade de uma vida saudável. Em apenas 10 dias aqui, já fiquei doente duas vezes.
 

Na casa em que vivo, não há um chuveiro e nem mesmo um vaso sanitário com descarga. Tomo banho de balde todos os dias por meio de uma água sem tratamento algum. A água é fria, muito suja e, por conta disso, o meu corpo coça o tempo todo. Para escovar os dentes, é preciso utilizar a água comprada, do contrário é muito fácil contrair qualquer doença.
 
A água para consumo é vendida em saquinhos plásticos, pois as pessoas não podem pagar por água engarrafada.
 
 
 Gana é muito quente. Eu não possuo nenhum ventilador e ainda tenho que dormir com um mosquiteiro que protege todo o meu corpo, pois há mosquitos por toda a parte e os riscos de contrair malária são grandes.
 

Confesso que no meu primeiro dia aqui eu chorei muito. Chorei baixinho, calada, mas com uma angústia tão forte no peito, que por um momento eu comecei a me questionar sobre a minha escolha pela África.
 
 
Os primeiros dias foram muito difíceis, e ainda estão sendo. Mas, inexplicavelmente, essa energia que vem tomando conta do meu coração tem transformado cada segundo em Gana cada vez mais incrível.
 

Já estou entendendo e me comunicando melhor com as pessoas. Já consigo comer em sacos plásticos e com a mão esquerda.Nas noites mais quentes, eu e Nii sempre nos arriscamos a dormir com as estrelas. Rezo todos os dias para não pegar malária. Chego tarde em casa toda encardida e suada, o que faz do banho frio de balde um presente de Deus.
 

As crianças ganenses iluminam meus dias. São as mais apaixonantes do mundo! E que gente linda essa de Gana! Estão sempre felizes, festejando, mesmo com tantos problemas. No nosso projeto, estamos tentando arrecadar dinheiro pela cidade toda de Kumasi para poder ajudar adultos e crianças com os testes de HIV, Malaria e Hepatite B.
 

 Nunca fui de acreditar muito nessas histórias de Bruxarias e Magia Negra. Mas que existe um misticismo muito forte na África baseado nisso, é um fato. Conversando com Nii, ele me disse que cresceu vendo sua avó fazendo feitiçarias. Ele ainda me explicou que além da Magia Negra, existe a Magia Branca, realizada para o bem.
 
 
Com os olhos arregalados, perguntei à ele se ele sabia como fazer um feitiço desse tipo. Sorrindo, ele olhou para mim e disse que não só sabia, como já tinha feito Magia Branca para mim. Assustada, perguntei o que ele havia feito. Dessa vez ele não sorriu. Sério, ele apenas respondeu: 'Gana vai tocar o seu coração para sempre'. Arrepiada, rebati: 'Já tocou'.
 
 
Não sei dizer se estou enfeitiçada. Só posso afirmar que eu nunca me senti tão iluminada como estou me sentindo agora. Observei bem ao nosso redor nesse vilarejo escondido do mundo. Além da pobreza, há magia por toda a parte.
 

Acima de nossas cabeças, somente o céu, as estrelas e Deus. Eu não poderia perder a chance de agradecer: 'Senhor, muito obrigada por tudo!'

Naquele momento eu só queria a África, mas no final das contas, ganhei o mundo.


 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

De Gana para a Índia


Muitos dizem que eu sou do mundo, cigana das saias coloridas que caminha sem rumo de um continente para outro. O que a maioria não sabe é o quanto dói deixar para trás pessoas e lugares que mudaram a minha vida, para partir para outros lugares em busca de novos sonhos.


Quando eu parti de Gana pela primeira vez, pude sentir todos os meus sonhos se despedaçando como cacos de vidro de um espelho quebrado. Na segunda vez em que deixei minha Mama Africa, foi como se eu estivesse me desprendendo do "meu lugar no mundo", como se eu fosse o próprio espelho quebrado em cacos.


Lembro, com uma angústia no peito, dos meus últimos minutos em Gana. Com os olhos cheios de lágrimas, eu olhava fixamente para Nii e acariciava seu rosto, ainda fascinada com sua pele negra, que parecia brilhar ainda mais naquele dia. Olhando nos meus olhos, ele disse: "Fica".


Naquele mesmo momento, além do calor de sua pele, eu pude sentir todos os meus sonhos de mudar o mundo tomarem conta do meu coração. Tudo o que eu mais queria era ficar, mas havia algo a mais esperando por mim lá fora: o mundo.


Sozinha e com apenas uma mochila nas costas, deixei a cigana que existe dentro de mim guiar os meus passos e atravessei sem medo do Oceano Atlântico ao Índico para a colorida Índia. Eu estava, literalmente, do outro lado do globo terrestre, no país das vacas sagradas, dos camelos e elefantes coloridos, do Rio Ganges e do Taj Mahal.


Já no aeroporto de Deli, capital da Índia, tive o meu primeiro choque de realidade. A quantidade de pessoas indo e vindo, vestidas dos mais diversos tecidos e cores, ganhavam toda a atenção do meu olhar, que já não sabia mais para onde focar.


Parada em meio àquela multidão que até então eu só conhecia nos filmes de Bolywood, fechei os olhos e desejei, mais do que nunca, desaparecer de toda aquela confusão.


Na transferência de Deli para Jaipur (o meu destino final), comecei a lembrar das histórias de Rama e Sita que eu lia quando criança. Além de aprender todos os ensinamentos de Rama, um dos meus sonhos de menina era tocar os Dálits e conhecer os refugiados do Tibet. Quando eu poderia imaginar que um dia estaria tão perto disso, em uma terra de Castelos, Templos, Fortes, Príncipes e Plebeus?


Os trajes, os traços físicos, os olhares, as crenças, um mundo à parte contrastado fortemente pela beleza e pela pobreza. De um lado, palácios, jóias, esmeraldas, diamantes, tecidos refinados. Do outro, lixo, fome, doenças, ratos por toda a parte, miséria.


Pelas ruas de Jaipur, não é comum ver muitas mulheres e, quando elas saem, estão cobertas por saris de diversas cores. Ainda surpresa com todas as descobertas desse país de outro mundo, me deparei com pessoas fazendo suas necessidades fisiológicas publicamente nas ruas. Não há banheiros públicos, o esgoto é a céu aberto e a maioria das ruas cheira muito mal.


No trânsito mais caótico do mundo, camelos, vacas, elefantes, bodes e tuk tuks. O som alto e incessante das buzinas dos veículos me davam dor de cabeça e faziam com que eu me questionasse se era realmente na Índia que eu deveria estar. Eu sentia, mais forte do que nunca, que havia deixado o meu coração na África.

Foi quando eu conheci esta princesa de Rajasthan, que tudo mudou. Tímida, ela me parou na rua e começou a cantar em hindi.

Encantada com a música e com a sua voz, perguntei o significado da letra.

Sorrindo, ela me respondeu que era uma canção de boas vindas e de felicidade para os estrangeiros que chegavam na Índia.

Conversando um pouco mais com ela, descobri que ela tinha 6 anos de idade e que cantava na rua para ajudar a sustentar sua mãe e a irmã recém-nascida.

Dei-lhe algumas rúpias quando, na verdade, queria lhe dar uma infância como a minha, repleta de historias de piratas e contos do Rama.

Com pressa, tive que partir. Somente mais tarde me dei conta de que nem mesmo o seu nome eu sabia.

 A última lembrança que eu tenho dela é de seu sorriso, puro como o de mais tantas outras crianças indianas que também saem às ruas dando boas vindas e alegria aos turistas em troca de apenas algumas rúpias.


A partir daquele momento, senti a verdadeira Índia pulsando forte no meu peito, e prometi à mim mesma que jamais deixaria uma menina como aquela partir com apenas algumas rúpias. Porque, naquele momento, muito mais do que uma canção de boas vindas, ela me deu inspiração e força para viver pelos próximos seis meses esse grande desafio do outro lado do mundo.


E se alguém me perguntasse até onde eu iria pelos meus sonhos, eu diria que vou até onde o meu coração bater mais forte. No momento, por todas as crianças indianas com super poderes de mudar os rumos da vida de alguém, esse lugar é a ÍNDIA.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Akwaaba!


Eu tinha seis anos de idade e já sonhava com a África. Lembro de me imaginar dançando com guerreiros africanos em tribos massais por meio dos meus livros de fantasia. Aos poucos, não só os guerreiros massais, mas também as crianças africanas, de sorrisos largos e olhos redondos, despertavam em mim um desejo incontrolável de partir para o continente esquecido, guiada apenas por meus sonhos de infância.


Para a maioria das pessoas, eu era uma lunática, iludida por sonhos grandes demais para alguém do meu tamanho. Só fui descobrir mais tarde que, maior do que os meus sonhos, era a minha força. E depois de muito lutar, eu estava realizando o maior sonho da minha vida ao pisar no continente dos personagens dos meus contos de fantasia.


Primeira parada: Joanesburgo, África do Sul. Eu estava sozinha, cansada, perdida em meio à tantas novidades naquele aeroporto estampado de riquezas culturais e materiais. Ainda assim, apesar de todo o cansaço, o sorriso permaneceu estampado no meu rosto como se eu estivesse enfeitiçada por alguma magia. Eu vibrava por dentro e era como se fogos de artifícios estourassem dentro do meu coração.


Depois de muitas horas de espera, eu entrava no avião rumo à Gana. Além do sorriso no rosto, uma lágrima. Era de pura felicidade. Aterrissei em Accra, capital de Gana. Dessa vez, eu não vi riquezas materiais como em Joanesburgo. Eu vi um povo, com sangue nos olhos, lutando por sobrevivência. Pensei comigo: "This is Africa".


No início, me senti uma intrusa. Todos me encaravam. Alguns admirados, tentavam me tocar. Queriam sentir a minha pele, entender o que uma mulher branca fazia na Terra dos Esquecidos.

Outros já me olhavam como se eu fosse uma inimiga. Ainda assim, não tive medo. Pelo contrário, queria me aproximar, sentir aquele povo com toda a minha alma, me entregar.


Já na rodoviária para pegar um ônibus rumo ao vilarejo de Kwamo, presenciei uma cena que ainda hoje me tira o sono. Uma senhora vendia uma bacia larga com pilhas de morcegos fritos. Era madrugada, e ela provavelmente era a única pessoa ali com a qual se poderia conseguir comida.


Desesperadamente, um menino pagava a senhora com alguns cedis (a moeda do país), e retirava de sua bacia, um morcego. Do seu lado havia uma menina, com a qual ele dividia um pedaço da asa do mamífero.

De dentro do ônibus, eu observava atônita àquela cena, que se afastava cada vez mais do meu campo de visão na medida em que o ônibus partia para Kwamo. No caminho para o meu destino final, já sem comer há muito tempo, eu me sentia enjoada.


O ônibus balançava muito na estrada de terra cheia de buracos. Luzes coloridas dentro do veículo chamavam a minha atenção. Um espetáculo de cores quentes que dava vida ao meu sonho de mudar o mundo, até então, preto e branco.


Um tempo depois, as luzes se apagaram. Me lembrei das crianças na rodoviária dividindo um pedaço de asa de morcego quando, no Brasil, eu ainda desperdiçava comida. Olhei para o céu e comecei a rezar.


Há 10.000 km da minha zona de conforto, a sensação de liberdade tomava conta de todo o meu corpo. Os meus sonhos já não tinham mais limites, e eu desejava, mais do que tudo, lutar por aquele povo esquecido, de dores e sorrisos, de injustiças e sonhos.


A Lua iluminava toda a estrada e da janela do ônibus, eu pude ver, nitidamente, Gana. Como era lindo! Naquele momento, eu só queria pular fora dali e sair correndo por entre as matas das florestas daquele lugar, como uma verdadeira selvagem descobrindo os próprios sentidos.

Do meu lado, o presidente africano da ONG que representava o meu voluntário.

Seu nome é Nii, assim mesmo, com apenas uma sílaba. Alto, magro, voz grossa, traços fortes.

Havia algo diferente nele. Fixei meus olhos em seu rosto.

Só então percebi que sua pele brilhava como um diamante negro. Fascinante.

Percebendo que eu o observava, ele virou-se para mim e perguntou quais eram as minhas primeiras impressões do país.

Sem muito pensar, respondi: "Tudo é tão diferente". Subitamente, ele disse: "Com certeza, você está em outro país".

Voltei-me para a Lua e, emocionada, respondi: "Gana não é só outro país, Gana é outro mundo".

Fechei meus olhos e encostei minha cabeça sobre o ombro dele. Os fogos de artifícios voltaram a tomar conta do meu coração e, antes que eu adormecesse, Nii ainda disse: "Akwaaba". Sonolenta, perguntei o que isto significava. Baixinho, ele respondeu: "Seja bem-vinda".