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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

De Gana para a Índia


Muitos dizem que eu sou do mundo, cigana das saias coloridas que caminha sem rumo de um continente para outro. O que a maioria não sabe é o quanto dói deixar para trás pessoas e lugares que mudaram a minha vida, para partir para outros lugares em busca de novos sonhos.


Quando eu parti de Gana pela primeira vez, pude sentir todos os meus sonhos se despedaçando como cacos de vidro de um espelho quebrado. Na segunda vez em que deixei minha Mama Africa, foi como se eu estivesse me desprendendo do "meu lugar no mundo", como se eu fosse o próprio espelho quebrado em cacos.


Lembro, com uma angústia no peito, dos meus últimos minutos em Gana. Com os olhos cheios de lágrimas, eu olhava fixamente para Nii e acariciava seu rosto, ainda fascinada com sua pele negra, que parecia brilhar ainda mais naquele dia. Olhando nos meus olhos, ele disse: "Fica".


Naquele mesmo momento, além do calor de sua pele, eu pude sentir todos os meus sonhos de mudar o mundo tomarem conta do meu coração. Tudo o que eu mais queria era ficar, mas havia algo a mais esperando por mim lá fora: o mundo.


Sozinha e com apenas uma mochila nas costas, deixei a cigana que existe dentro de mim guiar os meus passos e atravessei sem medo do Oceano Atlântico ao Índico para a colorida Índia. Eu estava, literalmente, do outro lado do globo terrestre, no país das vacas sagradas, dos camelos e elefantes coloridos, do Rio Ganges e do Taj Mahal.


Já no aeroporto de Deli, capital da Índia, tive o meu primeiro choque de realidade. A quantidade de pessoas indo e vindo, vestidas dos mais diversos tecidos e cores, ganhavam toda a atenção do meu olhar, que já não sabia mais para onde focar.


Parada em meio àquela multidão que até então eu só conhecia nos filmes de Bolywood, fechei os olhos e desejei, mais do que nunca, desaparecer de toda aquela confusão.


Na transferência de Deli para Jaipur (o meu destino final), comecei a lembrar das histórias de Rama e Sita que eu lia quando criança. Além de aprender todos os ensinamentos de Rama, um dos meus sonhos de menina era tocar os Dálits e conhecer os refugiados do Tibet. Quando eu poderia imaginar que um dia estaria tão perto disso, em uma terra de Castelos, Templos, Fortes, Príncipes e Plebeus?


Os trajes, os traços físicos, os olhares, as crenças, um mundo à parte contrastado fortemente pela beleza e pela pobreza. De um lado, palácios, jóias, esmeraldas, diamantes, tecidos refinados. Do outro, lixo, fome, doenças, ratos por toda a parte, miséria.


Pelas ruas de Jaipur, não é comum ver muitas mulheres e, quando elas saem, estão cobertas por saris de diversas cores. Ainda surpresa com todas as descobertas desse país de outro mundo, me deparei com pessoas fazendo suas necessidades fisiológicas publicamente nas ruas. Não há banheiros públicos, o esgoto é a céu aberto e a maioria das ruas cheira muito mal.


No trânsito mais caótico do mundo, camelos, vacas, elefantes, bodes e tuk tuks. O som alto e incessante das buzinas dos veículos me davam dor de cabeça e faziam com que eu me questionasse se era realmente na Índia que eu deveria estar. Eu sentia, mais forte do que nunca, que havia deixado o meu coração na África.

Foi quando eu conheci esta princesa de Rajasthan, que tudo mudou. Tímida, ela me parou na rua e começou a cantar em hindi.

Encantada com a música e com a sua voz, perguntei o significado da letra.

Sorrindo, ela me respondeu que era uma canção de boas vindas e de felicidade para os estrangeiros que chegavam na Índia.

Conversando um pouco mais com ela, descobri que ela tinha 6 anos de idade e que cantava na rua para ajudar a sustentar sua mãe e a irmã recém-nascida.

Dei-lhe algumas rúpias quando, na verdade, queria lhe dar uma infância como a minha, repleta de historias de piratas e contos do Rama.

Com pressa, tive que partir. Somente mais tarde me dei conta de que nem mesmo o seu nome eu sabia.

 A última lembrança que eu tenho dela é de seu sorriso, puro como o de mais tantas outras crianças indianas que também saem às ruas dando boas vindas e alegria aos turistas em troca de apenas algumas rúpias.


A partir daquele momento, senti a verdadeira Índia pulsando forte no meu peito, e prometi à mim mesma que jamais deixaria uma menina como aquela partir com apenas algumas rúpias. Porque, naquele momento, muito mais do que uma canção de boas vindas, ela me deu inspiração e força para viver pelos próximos seis meses esse grande desafio do outro lado do mundo.


E se alguém me perguntasse até onde eu iria pelos meus sonhos, eu diria que vou até onde o meu coração bater mais forte. No momento, por todas as crianças indianas com super poderes de mudar os rumos da vida de alguém, esse lugar é a ÍNDIA.

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