Há dias que não são fáceis e é preciso muita coragem para passar por cima de todos os problemas, uma verdadeira luta diária. É estranho dizer isso, mas apesar de todas as dificuldades, sinto uma energia cada vez mais forte tomando conta do meu coração, e é isso o que tem me dado forças.
A língua oficial de Gana é o Inglês, no entanto há a predominância de diferentes idiomas locais. As comunidades mais pobres, por exemplo, não possuem o domínio do Inglês, o que dificulta muito a comunicação por aqui, principalmente no projeto de HIV que estamos desenvolvendo. A língua local falada no vilarejo de Kwamo, onde vivo, é o Twi. Aos poucos, estou tentando aprender pelo menos o básico.
A comida é imensamente apimentada, misturada e colocada em sacos plásticos enrolados em jornais, para ser vendida em barracas pelas ruas. Tudo é muito gorduroso, já que a maioria das coisas são fritas em banha de porco.
É comum o consumo de carne de frango, bode e, assustadoramente, morcego e rato. Muitos saem à caça de ratos durante a noite, queimando as matas com círculos de fogo para que os animais sejam capturados.
Como não há a utilização de talheres, tenho que comer com as mãos, até mesmo sopas. Na verdade, apenas com a mão direita.
Comer com a mão esquerda é considerado uma falta de respeito para os ganenses.
Para eles a mão esquerda é a mão que limpa as nossas necessidades fisiológicas.
Como todos sabem que as condições de higiene em Gana são muito precárias, isso seria um desrespeito.
Os ganenses em geral fazem apenas de uma a duas refeições por dia.
As pessoas não possuem condições financeiras para bancar mais do que isso.
E além disso, o país não oferece estrutura para a possibilidade de uma vida saudável. Em apenas 10 dias aqui, já fiquei doente duas vezes.
Na casa em que vivo, não há um chuveiro e nem mesmo um vaso sanitário com descarga. Tomo banho de balde todos os dias por meio de uma água sem tratamento algum. A água é fria, muito suja e, por conta disso, o meu corpo coça o tempo todo. Para escovar os dentes, é preciso utilizar a água comprada, do contrário é muito fácil contrair qualquer doença.
A água para consumo é vendida em saquinhos plásticos, pois as pessoas não podem pagar por água engarrafada.
Gana é muito quente. Eu não possuo nenhum ventilador e ainda tenho que dormir com um mosquiteiro que protege todo o meu corpo, pois há mosquitos por toda a parte e os riscos de contrair malária são grandes.
Confesso que no meu primeiro dia aqui eu chorei muito. Chorei baixinho, calada, mas com uma angústia tão forte no peito, que por um momento eu comecei a me questionar sobre a minha escolha pela África.
Os primeiros dias foram muito difíceis, e ainda estão sendo. Mas, inexplicavelmente, essa energia que vem tomando conta do meu coração tem transformado cada segundo em Gana cada vez mais incrível.
Já estou entendendo e me comunicando melhor com as pessoas. Já consigo comer em sacos plásticos e com a mão esquerda.Nas noites mais quentes, eu e Nii sempre nos arriscamos a dormir com as estrelas. Rezo todos os dias para não pegar malária. Chego tarde em casa toda encardida e suada, o que faz do banho frio de balde um presente de Deus.
As crianças ganenses iluminam meus dias. São as mais apaixonantes do mundo! E que gente linda essa de Gana! Estão sempre felizes, festejando, mesmo com tantos problemas. No nosso projeto, estamos tentando arrecadar dinheiro pela cidade toda de Kumasi para poder ajudar adultos e crianças com os testes de HIV, Malaria e Hepatite B.
Nunca fui de acreditar muito nessas histórias de Bruxarias e Magia Negra. Mas que existe um misticismo muito forte na África baseado nisso, é um fato. Conversando com Nii, ele me disse que cresceu vendo sua avó fazendo feitiçarias. Ele ainda me explicou que além da Magia Negra, existe a Magia Branca, realizada para o bem.
Com os olhos arregalados, perguntei à ele se ele sabia como fazer um feitiço desse tipo. Sorrindo, ele olhou para mim e disse que não só sabia, como já tinha feito Magia Branca para mim. Assustada, perguntei o que ele havia feito. Dessa vez ele não sorriu. Sério, ele apenas respondeu: 'Gana vai tocar o seu coração para sempre'. Arrepiada, rebati: 'Já tocou'.
Não sei dizer se estou enfeitiçada. Só posso afirmar que eu nunca me senti tão iluminada como estou me sentindo agora. Observei bem ao nosso redor nesse vilarejo escondido do mundo. Além da pobreza, há magia por toda a parte.
Acima de nossas cabeças, somente o céu, as estrelas e Deus. Eu não poderia perder a chance de agradecer: 'Senhor, muito obrigada por tudo!'
Naquele momento eu só queria a África, mas no final das contas, ganhei o mundo.















Nossaaaaa, achei muito interessante! Além de muito inspirador!! Continue assim!! Beijos
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